Para hoje reservei a sugestão de um excelente autor português, com um livro absolutamente genial e arrepiante:
A Casa Quieta
Rodrigo Guedes de Carvalho
(Dom Quixote)

Num estilo muito próprio e envolvente, em que as vozes narrativas se entrelaçam e se cruzam tal como a vida das várias personagens, Rodrigo Guedes de Carvalho contempla-nos com este pedaço de vidas humanas com sabor aos mais profundos sentimentos e emoções.
E inevitavelmente surgem-nos, por isso, temas como a morte, a loucura, a infidelidade, a família, a confiança, o perdão, ... A ordem do tempo escolhida é também deliciosa, com a sua perspectiva inovadora: partimos de Novembro de 2005 e depois somos testemunhas de saltos temporais, em que viajamos até 1985, 1995 e, por fim, novamente, 2005.
Salvador é um marido como tantos outros. Adora a mulher, a sua Mariana, mas também ele cometeu pecados com os quais será eternamente atormentado. O verdadeiro valor da mulher que tem a seu lado e o quanto a ama só compreenderá no momento em que sabe que a irá perder. Como é que concebemos uma vida sem alguém que é parte indelével dela? Como vemos alguém morrer a nosso lado? Como o deixamos partir? O que acontece quando a casa fica "quieta"?
Um romance tocante e profundo que nos leva a questionar o verdadeiro valor das nossas relações e dos outros na nossa vida.
"Um livro assombroso no modo como trata a palavra enquanto objecto estético e também desarmante em matéria de emoções. Não há que ter medo das palavras, temos Escritor com maiúscula!" in Magazine Artes
"Um texto imaginativo, elaborado, que se percebe ser escrito com gosto e problematizado com pensamento vigilante, ligado ao quotidiano por vivências e emoções que revelam a intimidade preciosa do sentir possível a cada um de nós." in Jornal de Letras
Deixo mais um excerto a juntar a um que anteriormente publiquei:
"Não te vou procurar. E vim para casa sabendo que pela primeira vez não o faria, interrogando-me como se faz isto, repara a impossibilidade, aprender a fazer como não se faz. É então isto a morte. (...) Não te podendo procurar porque és agora nada, a morte são uns olhos de cão aos pés do teu lugar da cama, a olhar para mim, a olhar para onde te via. (...) A tua morte matou-nos. (...) Levanto-me. Sento-me. Ergo-me. Caminho. Dou a volta. Regresso. Os passos do cão atrás de mim. As unhas dele no soalho. Poderia talvez dizer o teu nome. Se eu fosse poeta acreditaria que isso havia de te ressuscitar. Dizer o teu nome. Pensar no que sempre ouvimos dizer. Que as pessoas não morrem desde que pensemos nelas. Desde que as mantenhamos junto a nós, desde que digamos os seus nomes, o que lhes garantia existirem e serem únicas e não serem mais ninguém. (...) É então isto a morte. Não estares lá e ao mesmo tempo não estares em sítio nenhum, na casa de banho, na sala, a desentortar a torneira do pátio, a regar as plantas, no supermercado, nem sequer na vizinha, não foste visitar a tua prima afastada doente, não estás à espera de um táxi na avenida, não estás Mariana."